Facetas Cariocas  
  

 

Gostaria de comprar um fusca pra rodar em estradas de terra, mas visito os carros anunciados e não consigo encontrá-los porque ou o dono viajou e levou o fusca anunciado, ou saiu e levou a chave, ou desistiu porque vai vender pra cunhada,  ou só vende depois do carnaval, e assim faço uma turnê pelo Rio, dou de cara inclusive com a rua onde morei quando criança. O único fusca que consigo ver a cara do dono estava parado na rua com uma plaquinha de papel colado no vidro mas era caro demais,  enfeitado demais, limpo demais pra andar na estrada de terra e sinto até pena dele e não compro. Como é que alguém paga um anúncio de um carro e sai no mesmo dia pra passear com ele?



 Escrito por GH às 04:04
[]


 
  

         

 

O cara que consertou a impressora da Maíra marcou de voltar porque, mesmo pago o conserto, continuava mandando mensagens de erro. Havia marcado uma visita para as nove e chegou onze e meia sem um mero CD de instalação e depois remarcou e esqueceu. Como é que alguém agenda uma visita cara e não anota, ou mente, e nos deixa esperando com a impressora parada e o conserto pago?

Tento empregar um dinheiro no banco, mas ele cobra caro se eu mexer na quantia e me oferece juros de merda e me cobra juros estratosféricos no empréstimo de vinte anos que já passavam cinco.

Sem querer sou ríspida com minha amiga porque um homem cheirando cola pára na frente do carro onde estamos as duas sozinhas de noite e diz coisas pedindo dinheiro e levanta a camisa e mostra uma ferida de faca com sangue na barriga e minha amiga vira o rosto com um grito e cobre o rosto com as mãos e eu brigo com ela porque queria que ela fingisse que estava tudo normal, ora, não devemos demonstrar medo, pode ser um assaltante, vai crescer pra cima de nós, fique impassível, brigo, disfarça, ora, como se nada estivesse acontecendo. Que amiga descontrolada! Depois me arrependo e peço desculpas ela. O mundo está ficando doido e quer nos levar com ele.

Pago ao mecânico uma grande quantia pela revisão do ar condicionado do carro que continua um forno, e suando volto lá doze vezes tentando manter a calma e não voar no pescoço dele. Na décima-terceira penso em ameaçá-lo de morte, mas digo que vou ao Juizado Especial em busca do meu prejuízo.

Visito uma cidade tão pequena que tem o mesmo número de habitantes do meu prédio. Aos poucos as crianças e até os cães me reconhecem. Nem celular pega em volta dessa praça onde a comunidade constrói com as próprias mãos casas para os desabrigados, e quando volto de lá, depois de tirar meu violão do sótão imaginário e aprender músicas de luar do sertão e de serestas com acordeom e fogueira, sou mais frágil.

Em vez de retornar energizada para o enfrentamento da cidade maravilhosa, volto mais sensível às cenas de rua, mais deslocada, e procuro em vão um sentido para o meu dia-a-dia. Um sentido para uma vida sem cachoeiras. O mundo vem de aeroporto, vem de metrô, e transborda o Rio de Janeiro para ver os Rolling Stones cantarem na praia de Copacabana. Passo a chave na porta e giro três vezes, troco as cordas do meu violão balzaquiano e juro que dessa vez aprendo, fecho bem as janelas, ligo o ar e me escondo. Tenho medo do Mick Jagger.



 Escrito por GH às 04:01
[]


 
  

Queria acordar amanhã com barulho de vaca e bezerro, de galo e pássaros, e rever as oito estrelas cadentes que me emocionaram deitada sozinha na grama úmida, vendo um céu tão cheio de estrelas que parecia cenário de seriado da Globo. O mundo real é muito, muito mais bonito.



 Escrito por GH às 03:56
[]


 
  

Fui tupinambá e preciso ser entendida levando-se em conta este aspecto.



 Escrito por GH às 03:57
[]


 
  

Ele deu defeito. Já me chamaram de prosaica e de barroca até o momento. O primeiro defeito a gente nunca esquece. Foi-se sem mexer em feriados. Não foi surpresa. E eu já sabia e já tinham me avisado. As mulheres não conhecem os sentimentos do homem, mas o seu funcionamento. 

 

O ser humano é insuportável quando estou de paquete. É de uma inutilidade mórbida. Não consegue inventar mais nada e mama nas fontes antigas o que reveste e vende com nova embalagem. Para cada remédio em teste, três eficazes venenos.

 

Às vezes dói como se fosse à toa. Como se o ser humano, a civilização, minha vida não pudessem ser melhores. E que eu esteja a me entristecer imotivadamente. Neste momento, agora, a noite no Arco da Lapa, meu vizinho, fervilha como uma ensandecida quermesse moderna, enquanto eu, retirada, escrevo a mão estas linhas mal-traçadas, com caneta e papel, na cama, como no século passado.

 

Tardiamente preparo um futuro que já chegou enquanto vivo acontecimentos episódicos. Os pés e os prós estão bem plantados no chão e eu, que nada fiz para merecer, tenho isso: casa, trabalho, filha.

 

A Lapa fervilha. Mas eu não gosto de festa de rua, viajo para a América pré-Colombiana e conheço a narigueira. Quando se interfere no imaginário de um grupo, ele se desestrutura e se torna subjugável. O Mercado superexpõe o artista e com isso a arte perde sua magia. Não penso em publicar livros como não pensava quando escrevia desde antes dos vinte anos. Outra coisa tem me aproximado de quando eu tinha tão pouca idade: uma desorientada saudade, sem alvo fixo.

 

Vivo em paz, como se não houvesse amanhã. É marca da minha geração. Não o medo da morte e outros entraves, como hoje sucede, mas uma certeza de que se a vida está agora aqui um dia inevitável não estará mais. Vivo em paz em parte porque nunca fui de fazer planos. Paguei o preço de viver à deriva, em cash. As certezas me salvaram, os planos me fizeram e a vida foi, como numa novela redundante, transcorrendo.

 

Os Astecas ficaram horrorizados com Cristo na cruz, recusavam-se a rezar para um deus morto. Preferiram Nossa Senhora. Mais bem vestida, limpa, viva, calma, pele boa.  Os Astecas receberam os espanhóis como deuses. E foram dizimados por eles. Os Astecas conheciam o zero, o vazio e o nada. Eram guerreiros e não faziam alianças.

O ser humano, em quase todas as épocas, revelou-se um imperialista que não mede esforços. Pelo poder, faz qualquer negócio, organiza a morte e mata. Fui tupinambá e preciso ser entendida levando-se em conta este aspecto. Circular pelada pela mata como uma criança refrescando-se em cachoeiras, e possuindo um comprovado riso frouxo, deixou em nosso povo marcas profundas, por muitas e muitas encarnações a fio. Conosco era assim: cada morto tinha direito a ser chorado histericamente durante algumas horas seguidas. Depois a vida continuava. Os prisioneiros de guerra eram tratados como membros da tribo até que engordavam, eram mortos e ritualisticamente comidos. Morria-se, desta forma, como um herói, jovem e exigindo vingança. Ou como um sábio, velho e dando conselhos. Nos novos tempos, a morte perdeu o estilo. Envelhecer não é de bom tom nas rodas que usam grife. Ora, com tanto recurso.



 Escrito por GH às 03:50
[]


 
      
 
 
 
 

HISTÓRICO
 Ver mensagens anteriores



OUTROS SITES
 gloriahorta.net
 Galeria Fotográfica
 Hall da Fama - Fotos
 ORKUT - Comunidade
Fãs da cantora Maíra Martins

 MAÍRA HORTA DE SÁ MARTINS
 Sangrias (GH)
 O OLHO DA RUA
BLOG DO MORADOR