Facetas Cariocas  
  

Minha alegria, matei o ZB em 1995, mas como ele não me avisou que havia se casado comigo, não tive como comunicá-lo da minha decisão de não mais tê-lo como marido imaginário. Vivi as dores do luto, cremei o corpo, espalhei as cinzas, chorei às pampas até que o tempo curou. Ele pensa que tem direito adquirido sobre mim. Não se dá ao trabalho nem de me fazer um leve cafuné na frente dos outros. E pra fazer amor, eu me sinto um urinol de ladinho. Nem me mexo. Ele não liga a mínima. Goza feliz e nem toca no assunto.

Comprei uma camiseta pra ele, preta. Ele não agradeceu, tampouco usou. Aliás, não dou sorte. Antigamente eu cismava que ele tinha que vestir azul, verde, vermelho e ele só usava preto. Depois, com os anos, ele passou a usar também branco. Mas eu insisti. Uma camisa azul turquesa em 1989. Ele usou uma vez num bloco de carnaval e nunca mais a vi. Esquecida desses detalhes que mencionei, achei simpático levar uma  lembrança PRETA. Nem tirou a camiseta do plástico.

Ontem fui ao cinema com o LRG, que está um santo feliz. Resolvemos ser amigos. Ele disse que conhecer-me é um luxo. Repetiu isso a noite inteira. Disse que é mais fácil encontrar um dromedário no Largo do Machado do que uma pessoa como eu. Babei. Mesmo comparada a um dromedário. Convidei-o para ir a minha casa nova, à beira do rio. Porém LRG vai viajar. Nega até a morte, mas tem mulher e filhos em Sacramento. Disse que na volta quer viajar comigo. Falei que na beira do rio ninguém rasga camisa nem dá tapa na cara. Ele riu e prometeu se comportar. Depois perguntou se eu não queria dormir na casa dele como amiga porque viu um filme de terror e tinha medo de ficar sozinho. Eu disse que estávamos tão bem como amigos que eu não queria arriscar. Agora veja. Fico com receio de transar e ele começar a falar aquelas asneiras todas e a tomar conhaque.

LRG lê feito um louco. Ontem o livro-tema era um do Nelson Rodrigues chamado Elas gostam de apanhar. Posso? LRG me empresta três livros de uma vez. Me dá três livros de uma vez. Lê três livros de uma vez. Mas se transar, toma conhaque e fala asneiras sobre as mulheres que comeu, que rasgaram a camisa dele, e pérolas do gênero que nem sei se inventa. Mando ele conversar esses assuntos com algum amigo. Comigo é doce.

Sinto muito a tua falta, minha alegria. Meus amigos, uma virou avó integral, outra é rica demais e viaja pra Budapeste, não tenho cacife pra acompanhar, outra é dura demais e não sai pra lugar nenhum, outro é casado e a mulher não gosta de mim, outro mora longe, outro tem preguiça, outro dor nas costas, outro bebe demais, outra bebe de menos e tem síndrome do pânico.

Aluguei uma casa na beira do rio. Acho que serei mais feliz, lá.

 

 

Não queria que os cinqüenta anos me encontrassem assim: estou mal vestida, cheia de tinta na cabeça, veja, como posso abrir a porta? Não me preparei, não fiz economia e nem as unhas. Pensava que estavam a caminho, a pé, aproximando-se com serenidade. Nunca poderia imaginar que pegariam uma ponte aérea.


 

 

 


Ela vai levar de mim, diariamente, um pouco de alguma coisa: grãos de viço, farelos de esperança, cartas da manga, coringas, bilhetes premiados, estofos, enchimentos, gotas de memória. A chegada dos cinqüenta anos vai me equipar de uma profunda sabedoria, mas tão tardia que terá apenas uma serventia: aceitar o cinqüentenário irreversível como se aceita uma doença incurável.

Continua



 Escrito por GH às 20:08
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