Facetas Cariocas  
  



A ESCOVA REGRESSIVA E O ELO PERDIDO


A escova regressiva – agora denominada ER – é mais que um alisar de cabelos. Trata-se, hoje, de uma investigação sobre as origens do ser humano e, quiçá, sobre a descoberta do elo perdido. Existem duas correntes de pesquisa que, embora aparentemente antagônicas, convergem para o ponto focal da ancestralidade: o cabelo toinhoinhóim.

De acordo com vertente valeriana, a ER nos remete às nossas vidas passadas. Valéria Val, cantora e sensitiva, ofereceu-se, em experiência pioneira, como cobaia numa série de sessões que comprovaram que a ER, a cada vez que é feita, traz de volta cabelos que tivemos em outras vidas, infelizmente, todas morridas.

 

E assim, de regressão em regressão, e sempre escovando, podemos comprovar que somos um povo miscigenado e eclético. A cada ER, uma vida passada a limpo, metaforicamente exibida num cabelo vermelho crepúsculo, sarará louro albino, preto básico, franja tupinambá, castanho acastanhado, atingindo, inexoravelmente, a raiz da questão, ou a uma questão de raiz: o cabelo afro-brasileiro. Nenhum tipo de preconceito sócio-capilar sobrevive ao tratamento completo da ER.

 

Cabe ressaltar que a outra corrente de pensamento, a ritabreuniana, atribui à ER o poder de fazer o ser humano vivenciar as experiências psicofilogênicas, não mais seguindo a linha das nossas próprias e prévias vidas personalizadas, mas a de nossos antecipados, como diria minha amiga americana.

 

De escovada em escovada, vamos entrando em contato com as reencadernações genealógicas. Descobrimos, fatalmente, que nem todos fomos reis e princesas européias, nem personalidades que entraram para a História, mas que também reencadernamo-nos em camareiras, ambulantes, cocheiros, pirados, loucos varridos da cidade, tarados despirocados e escravos de mil e uma categorias.

 

Numa perspectiva histórica, lembramos que a "escova", como era chamada, simplesmente substituía o método de alisar as madeixas utilizando-se a popular "touca", que consistia em esticar o cabelo ao redor do crânio, prendendo-o com grampos, e cobrindo-o com lenço ou meia. Neste artifício, era necessário, de hora em hora, "virar a touca", isto é, repetir o mesmo procedimento, desta vez em sentido contrário, para que um lado não ficasse diferente do outro, resultado, segundo nossas observações empíricas, bastante comum.

 

Considerando que a cabeleira, após chuva, suor ou lavagem, sofria efeito retroativo, ou seja, voltava a assumir as características originais, o adjetivo "regressiva" revelou-se mais adequado para o campo da investigação científica, e acabou nomeando duas correntes de pensamento que têm como objeto um dos maiores desafios da Ciência capilar pós-contemporânea: a origem do ser humano, e onde foi que deus errado, digo, que deu errado.

 

Assim, e só assim, escovando, encontraremos o halo perdido, digo, o elo perdido, escarafunchando nos caracóis de seus cabelos, como agulha nos palheiros, o momento exato em que o belo ser humano, atônito, transformou-se num bélico primata atômico.

Continua




 Escrito por GH às 16:56
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