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Escrito por GH às 19:38
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No meu esconderijo tem uma trilha quase secreta que desemboca na beira de um riacho raso e frio com uma branca queda dágua e muita sombra. O sol vai lá, mas tem que ser cedinho. Colibris, jacus, esquilos, montanhas de pedras redondas onde o sol se demora na careca, árvores nascem sobre pedras e se enfiam no caule das outras quando há buracos, feito cópulas, porque a vida quer continuar e nos usa, mero instrumento, queimando carnes na fogueira do desejo, mesmo quando já não podemos mais ter filhos, insensata.
Quatro visitas do mecânico, o carro pára na rua pela quinta vez, choro. Junta gente em volta e eu pago o mico, previsto no orçamento. Palavras novas em folha entram no meu vocabulário: rotor, aerofólio, giglê, variador de avanço. Outras mudam completamente de sentido: vela, filtro, correia. Meu amigo chega de camisa azul turquesa, e atravessa a pista quase voando, encontra logo um fio solto, prende e o carro ronca, sai correndo feliz como um semi-novo, meu negão cadete adolescente que eu boto o maior gás e ele sempre morre comigo. Rimos. Acho poesia num enguiço.
Há cubículos na Penitenciária Lemos de Brito que são verdadeiros brincos. Tudo tem grade: a escola, a igreja, as oficinas e até a janela do quarto de Jesus num quadro pintado a mão por um preso.
Escrito por GH às 19:29
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No meu esconderijo é silêncio, o barulho é da água e de pássaros estranhos. Lá, não uso sapatos. Lá, não olho espelhos. Na porta da casa tem uma árvore de flor tão vermelha que o mundo não parece hostil e a natureza parece que nos abençoa. Preciso do combustível desse doce e voluntário isolamento. Preciso ir viva ao paraíso nos fins de semana. A rotina me esmaga como uma sola de sapato pisa na formiga. Mas eu conheço um caminho de pedras que metamorfoseia. Hiberno e volto, disfarçada como se fosse a mesma.

Escrito por GH às 19:29
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Escrito por GH às 19:25
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Girassóis, estrelas do mar, afogo-me num amar de risos porque a metáfora é tão boa e a poesia voltou pra mim como um amante arrependido. Encheu meu coração de rimas e de ritmos que não comando. Às vezes penso que ela foi embora, que fiquei velha, que fiquei triste para sempre, que caí na mediocridade de ver novelas, juntar dinheiro e sentir dores, medo e ciúmes como todo o mundo, que minha dor só vai me fazer chorar e chorar e é quase à toa, olhos marejados, rio de lágrimas, disfarçadas feito pecado feio, é proibido ser triste, é feio chorar escondido, e se alguém me pega? Entrego-me à avalanche das palavras e nem me ligo nos significados, que desculpem e descubram os leitores, se houver, quando eu própria tiver me transformado numa metáfora, numa onomatopéia, numa metonímia. Não conjugue “o” verbo, nunca diga “amamos”. Não me ameace com o amor, isso é chantagem, isso é bobagem, ou nunca mais te lerei, eu juro. Quando crescer, quero ser metáfora. E morar na poesia, na tua, que quero uma por dia, te espremendo assim com toda a força o coração, o peito, o choro, o desejo, o medo, a alegria exagerada que nos envergonha porque o mundo é triste pra caramba, cheio de gente com fome e ladrões de merenda, e ainda assim quero teus versos diários, vindos pela estratosfera via satélite num rabo de foguete, quente como fomos, como poderíamos ser de novo se habitássemos o mesmo planeta, se nos encontrássemos por acaso numa revelação bem na esquina, se clicássemos com a retina e pudéssemos saber da cara um do outro sem o recurso de olhar fotografia, porque já pintei o cabelo e você nem fez a barba, talvez hoje eu seja loura, eu seja outra, ou louca, como saberias? A rotina nos massacraria, a culpa, nossas diferenças. Guardo teu olho de rasgar meu corpo numa lembrança bem curta, foi um flagrante, um olhar quase um delito, tu não me olhavas, me espiavas, sei do desejo e da desconfiança. Nunca me encontrarás fora das letras, fiquei na margem do rio, numa tenda onde nos abraçamos como dois estranhos, suados e aflitos, quase arrependidos. O telefone da loura ficou escrito no programa. O mundo está cheio delas, nelas tropeças, contas, casas, nunca tendas, nelas filhos. Eu fiquei com o coração aos pulos olhando o sol se pôr na beira do rio, com todos os ciúmes que senti na vida, amalgamados na violência daquela cena. Nunca me encontrarás porque eu não estou no Rio, estou no epicentro de um mundo melhor que desmontaram depois do evento, vento. Invento combinações de palavras malucas e fico aliviada e satisfeita, como se por algumas horas eu habitasse outro universo, o nosso, de verso. Tu sabes quanto tempo leva uma poesia, quanta alegria, quanto transbordamento. Semana passada eu não conseguia escrever uma linha de poema. Cheguei no trabalho como quem chega no inferno alegre porque existe vida depois da morte. Mas temos sorte, a poesia me possuiu de novo como um macho de personalidade forte. Fecho os olhos e teclo, teclo, teclo, sem olhar, como se pianista fosse e ouvisse música. Como se psicografasse. Como se um girassol se curvasse, como se uma estrela cadente nos abençoasse. Nunca seremos consumistas. Nunca meras conquistas. Temos poemas nascendo de dentro da cabeça e isso é milagre. Somos fábrica de enrolar palavras, com elas desmanchamos o mundo da cobiça. Quem tem metáforas guardadas dentro do corpo não compra celular último tipo. Tem preguiça.
Escrito por GH às 03:56
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“É melhor um Porto Alegre
que um porto seguro
em nossa viagem pelo escuro”.
(Caetano)
Escrito por GH às 21:53
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Esperávamos pela mágica do amor, ela passou batida. Estávamos distraídos, observando a trajetória dos ventos, devendo aos bancos, recortando classificados, conferindo extratos, parados em sinais, congelados como monitores de computadores de veneta, sonhando alto, olhando as luas de ponta cabeça feito uma taça virada, ouvi aquele apito do trem do metrô que avisa fechando portas e meu grande amor já tinha tomado outro rumo no vagão da frente. Foi-se. Levou-me no bolso como um souvenir de viagem, pelo curto eterno tempo que passamos juntos. Guarda-me assim, como um retrato, enquanto a lua mingua, o sol se põe de lado, e nuvens carregadas de lembranças tão tolas quanto as nossas atravessam os cantos do céu criminosas, ora, flores morrem todos os dias e o que tenho de ti, roubei: a foto, a palavra, a promessa, o esperma, o beijo. Lembra de mim como alguém que riu muito e nem por isso teve as razões do mundo.
Os que morreram continuam a fazê-lo todos os dias. Mamãe, quero telefonar-te, só isso. Aceito tua morte e me recuso a nunca mais ouvir tua voz na linha, preciso te contar detalhes do que se passou comigo nos últimos nove anos, mas eu não tinha idéia de quanto tempo teria que viver sem você do outro lado. Não tem mais endereço, nem número. Falo sozinha e pego o gancho feito maluca, questão de segundos. Depois escondo o pensamento e digo que a mãe sou eu, que agora a mãe sou eu e fico te imitando. Seu namorado morreu, fiquei sabendo ontem. Nem dei adeus, nem fiz visita, estava ocupada recortando classificados, conferindo extratos, refazendo contas, tonta, dei uma choradinha depois voltei pro carrossel da vida.
As mães morrem e os amores mágicos passam batidos enquanto estamos distraídos. Isso é eterno, imprescritível, definitivo. Por isso não carrego fardos. Reinvento todo dia a nossa história. Nunca é a mesma, eu sou criativa. Na real, ninguém ressuscita, ninguém se abraça a alguém e de amor grita, ninguém agarra a magia porque ela é matéria feita de vento. Estou viva e é uma questão de tempo. Eu, você, nossos amigos e a torcida do Flamengo.
Você, me leva no bolso como um souvenir porque eu sempre trago lembranças, eu poderia ter sido e não fui, esta é a razão de estar leve como uma folha de papel em branco onde o meu mágico amor, aquele que passou batido, pode escrever ideogramas, desenhar palavras em letra de forma porque nada entre nós é proibido, nem a pétala morta dentro do livro é cafona, nem a ausência conta porque o que é nosso foi sonhado ou vivido. A morte é banal, essa não muda. O tempo é sempre curto, que ninguém se iluda. A elasticidade dos sentimentos relâmpagos é o que assusta.
Escrito por GH às 04:34
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Esperava um futuro e não era esse. Não era a juventude que nos tornava risonhos, alegres, ironicamente revolucionários sem teses, praticando a liberdade feito loucos que se encontram no fundo de um sonho, o tempo vai passando feito flecha e a gente continua querendo transgredir, acreditar, viver paixões imensas, por pessoas, por idéias, por autores, por quadros, por cantos, por músicas, paisagens, dias ensolarados de quase inverno, loucamente apaixonados por estados de espírito e, pasmem, grisalhos, levando no fundo da mochila datada as asas do vôo que não nos abandonou porque a passagem de um tempo não foi a passagem de um túnel, mas uma seqüência de dias enfileirados num mundo que me estranha, desconfio dele, é certo, mas continuamos rindo como crianças, e esperando o futuro com tantos planos que penso em escondê-los dos bocós que nunca dançam sozinhos, nem viajam sem medo, nem tecem mirabolantes planos para um futuro sem nome, um pouco de loucura nos torna mais civilizados, conseguimos ver a insensatez e a inutilidade das convenções que nos cercam, tão loucas quanto as que nos cercavam quando tínhamos vinte anos, casacos marrons e cabelos ao vento. O mundo continua perverso e doido e nós continuamos sonhando e rindo, porque não há de ser nenhuma regra dessa sociedade doentia que vai nortear nossos caminhos de serpente. Somos poetas, artistas, doces subversões, quem sabe ainda aprenderemos a tocar violão, a falar espanhol, a dançar tango ou comer estrelas, e levar a vida na flauta porque os sérios são os piores, os cenhos franzidos escondem mentiras. Quero ser como sou para o resto da vida. E encontrar a morte completamente nua, treinando um passo novo, para que Ela nunca me reconheça, nunca me identifique, e me leve bem leve e me abandone exatamente onde acaba o universo finito, garantindo que eu não nasça nunca mais, que eu não reencarne nunca mais, que essa carne seja minha última morada e depois de morta eu me transforme num riso aberto no mundo das idéias. Lá, onde existe um cavalo alado à minha direita enquanto pensamento. Encontre-me lá, meu velho amor novo e perdido, e lá não haverá fidelidade nem juramentos, culpas nem perigo de contágio, mentiras ou exageros, sequer arrependimentos. Seremos desdobramentos, replicados, e poderemos viver várias vidas, e todas as mesmo tempo, sem precisar fazer de conta nem fugir do desejo que às vezes nos assalta, mão leve. O amor não será uma ameaça, a solidão não será um perigo. Fica comigo enquanto passa a chuva. Porque eu nunca mais terei teu cheiro em minhas mãos como outrora. Nunca retrocederemos no tempo. Nunca lançaremos mão de recursos de encontro. Fica comigo enquanto o sol se esconde, porque não sei quem és, não sabes quem sou nem eu, e até mesmo nossa existência é duvidosa, transcorre sem deixar pistas. Que espanem o pó no qual nos transformaremos. Pó de estrelas, transformando em gargalhadas tormentos. Que eu não pense em ti, não há um só momento. O futuro está chegando a cavalo. Ele é veloz e nos petrifica. Eu te perdi de vista. Mas as palavras jorram como água de fonte sem que eu lhes conceda um sentido. Pegue-as, não desperdice o séquito, lance-as ao vento do esquecimento porque sou finita como flores, e nunca serei tua. Guarde seu desejo em segredo numa água forte, e pinte um quadro realista. Ele será verdadeiro, atravessará os próximos séculos e viverá para sempre, pois a cada ano que passa aperfeiçoam-se as técnicas de restauro.

Continua
Escrito por GH às 03:47
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