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CONFESSO QUE NÃO VI
Sete malas de dinheiro, dólares na cueca, grampos, olho roxo, tudo dinheiro que sai do nosso bolso sem a gente ver. Nos impostos embutidos, nos descontos de salário, na CPMF safada. Sete malas de dinheiro, dólares na cueca são a viagem que não fizemos, o curso que interrompemos, o doente que morreu na fila, o projeto que morreu na praia, a loja que fechou, a bolsa de estudos que não saiu, o bebê que morreu, o celular que sumiu, o dente que falta na boca, o espaço que falta na casa, o doce que falta na geladeira, os filhos que não pude ter, e tudo que tivemos que vender.
Agora acabou. Não tenho mais vinte anos para esperar vinte anos a esquerda poder. Não há mais esquerdas, honestidade é a palavra rica. Por isso fico azeda. Amarga, aflita. Vocês tiveram o remo do mundo e, fracos, deixaram-se levar pela correnteza do “foi sempre assim”.
Faltaram coragem, ideais e sonhos.
Vocês já estão é muito gordos, papudos, papadas nos olhos, papando tudo.
Demorou tanto que perderam o encanto,
ficaram velhacos, uns cacos.
Olha, Presidente, não queremos apenas notícias, transparências, justiça e apurações.
Queremos de volta todos os nossos suados tostões.
Escrito por GH às 04:20
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CONFESSO QUE NÃO VI
Ah, que às vezes eu queria ser como vovó e ir logo envelhecendo. Cabelos azuis, salto alto, bandolim, vovó Adila envelheceu assim. Eu não. Acordo e levanto peso. Ando a pé e murcho a barriga. Como menos do que gostaria.
Faço sacrifícios porque não podemos parar hoje em dia, temos que ser eternamente jovens em plena euforia. Não tenho mais insônias porque agora durmo tarde. O resultado são horas sobrando na escuridão de um dia que já terminou. E vejo tevê, mau sinal. Desligo e escrevo. Pra não dormir, sem reler. O dia morreu. Trata-se de um velório. Logo enterro na memória, e já amanhece outro. Confundem-se os dias entre tantos amanhãs. Ficarão lembranças salpicadas, recortes aleatórios. Somos mistura de sonhos sonhados com tudo que não fizemos, na argamassa da vida. As recordações me assaltam, os desencontros, os arrependimentos. Saudades do que não foi possível, do que não estava ao meu alcance, do que não me deu chance, do que não mereci, do que não batalhei bastante, do que me escapou entre os dedos, do que tive medo, daquele futuro que eu jurava que era meu, pois se esteve bem na minha frente e eu perdi de vista, futuros fugiram sem deixar pistas. As saudades me assaltam, de quem foi embora porque morreu, de quem larguei porque doeu, de quem quis tudo, menos eu. Dos livros que não publiquei, do romance que não batalhei, da criança que cresceu, de quem me quis mas não deu. Dos planos que não deram certo, do que não veio e passou perto, raspando, quase acerto.
A vida passou e eu não vi.
Continua passando e eu não morri. Vida, quero te ver.
Olha eu aqui.

Escrito por GH às 04:04
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Vapt vupt passou um ano. Zás o tempo me atropela. Hoje chorei à toa, deve ser por isso. Preciso de planos urgentes. Fico olhando para trás, como alguém que é seguido e tem medo. Vou dar com a cara no poste, só isso. Só o louco do Tarô vai embora de mochila, olhando a beleza do céu, não vê onde pisa. Está à beira do abismo, mas não se dá conta. Até seu cão pressente os limites, morde-lhe a perna porque não fala. Ele não tem casa ou deixou-a. Nem filhos, ou não pôde levá-los consigo. Um celular vai no bolso, sem crédito. Ainda assim escolhi este caminho. E por ele sigo em frente, como um carrinho de pilha sem controle por mais remoto. A dor que ficou para trás assombra o escuro da noite e a televisão me mostra mundos aos quais não pertenço. Roubo de dinheiro público, atentados terroristas, vítimas, tornados. Nem uma noticiazinha boa. De bom, parece, só a vida dos artistas. Todas as balsas do naufrágio são alienantes. Para alienar-me da alienação construo um mundo próprio. E nele solto gargalhadas iguaizinhas às da minha mãe, danço aeróbica, até perder o fôlego, e ficar tonta.
Hoje naveguei no Orkut, essa carruagem lenta que vez por outra empaca, assim como a morosidade do Yahoo anexando arquivos, eu olhando fixo para quadradinhos piscando, como se uma mera foto fosse um caminhão de tijolinhos para descarregar. Vivemos no mundo travado dos congelamentos, das filas, dos engarrafamentos, do telemarketing, das secretárias eletrônicas repetitivas e monocórdias, feito disco arranhado. A velocidade moderna é uma lesma a bordo de um avião supersônico e falho. Tudo demora, só o tempo corre. Ninguém segura.
Escrito por GH às 19:00
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A televisão, muito perto da cama, sem volume, funciona como uma grande luminária caleidoscópica na escuridão do quarto. Outro dia, acompanhar uma conversa de bar não conseguia, fiquei com os ouvidos simpáticos. Há companhias que não dão defeito e há muito mais gente querendo falar do que ouvir. Calada, os amigos se abriram, sem as minhas impetuosas interferências. Faça-me o favor, a vida não é séria, é mínima. Não custa nada ficar calada. É só por uma noite. Falo muito para espantar o tédio, falo muito porque assim me divirto e evito diálogos sem sentido. Falo como se escrevesse. E hoje não escuto tiros, nem o forró com microfone na rua da Lapa, nem a briga do vizinho, nem os pássaros, nem a cachoeira, tampouco o start da geladeira. É um silêncio de domingo no bairro boêmio. E por ele chegam as ausências todas, confinadas num baldinho. Nem ligo o som, nem ligo. Repito que está silêncio porque estou sozinha, é isso. Não há como evitar essa dor, é impossível. Nem cantando os males espanto. Quero janelas e boca fechadas. É um perigo essa mistura de solidão e silêncio juntos e eu gosto de aventuras dramáticas. Na escuridão da noite iluminada por uma televisão amordaçada, a esquerda carrega malas de dinheiro então pra mim será sempre tarde demais, um mundo melhor não será mais possível, não sou mais oposição, nem rebelde, nem revolucionariamente escapista, nesta encadernação tornei-me urbanóide igual, hippie é neo-rural, sexo só com camisinha e afeto. Sambo às quintas, estudo à noite, espero os netos. Não sofro à toa. Faço questão de ficar muito amargurada. Mais que mar, mais que sal, mais que lágrima. Nem chorar consigo. Quero a amargura pura. Com poucas rimas. Quero que doa.
Escrito por GH às 04:41
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A vida não me daria saúde perfeita, filha maravilhosa, doce companheiro, casa confortabilíssima, conta bancária farta, amigos divertidos, viagens pra longe, carro possante, humor refinado, coragem. Porque não é do seu feitio dar esse mole para as pessoas. São raros os eleitos que possuem qualquer dessas sortes. Sou uma mãe coruja de ego inflado. Aceito as lacunas, as saudades sem remédio ou descanso que guardo no peito, as dores para as quais conheço analgésicos de efeito duradouro. Aceito sua ausência nesse pacote de renúncias. A vida é parcimoniosa quando se trata de conceder milagres. Como queiras, caríssimo coração, que cales, caminharei quieta quase cósmica na língua do quê? Viu? Palavras servem também para jogos, para passar o tempo a ferro, não pedi-las mais a você. Guarde-as num cofre secreto. Vamos temer.
Vi móveis imensos içados pela janela, tem gente mudando, voltando com ânimo de ficar muito tempo, proprietários de pesados pertences que nem desmontam, nem sobem escadas, sofás voadores, homens fortes puxando cordas. Também vi a caminhonete entulhada de objetos parecidos, muitas sacolas, velharias, apegos, intimidades como travesseiros, expostos à poeira, à visão das manchas. Todos mudam, todos se mudam, mudamo-nos, rumo ao futuro, em círculos ou pra trás. Em breve a vida me trará raízes profundas mas hoje estou solta, aerofóbica. Eu ainda serei outra, é aguardar e ver. Hoje aproveito este interregno de borboleta e vôo movimentos aflitos de beija-flor que pára no ar e súbito some. Olha que os beija-flores não dão rasantes, não plainam, as gaivotas mergulham, cada um do seu jeito, credo, até as baratas voam, que coisa mais chata. Voar deveria ser glamour, mon amour, um explícito privilégio dos pássaros elegantes, dos carros possantes, dos homens belos, amantes, e das pessoas livres como eu e você.

Continua
Escrito por GH às 18:55
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