Facetas Cariocas  
  

                                                       

Sou uma cinéfila, sem pretensões. Ontem vi três filmes. Adoro me enfiar no Unibanco e lá passar o dia mudando de salas, entre pães de queijo e aquelas caras todas, modernosas. Certa vez estava na rodoviária de uma cidade do interior de Minas esperando meu ônibus quando vi um grupo de minhocas barulhentas, coloridas, risonhas e faladeiras. Em seguida observei uma lindosa melancólica num pretinho básico sentada fumando bela e olhando para o nada. Era uma urbana. Às vezes olho pra mim na rua e lembro dessa fumante solitária. Mas já fui Tupinambá e sei o valor das coisas: pé descalço, uma boa rede em frente ao pôr-do-sol contemplativo no epicentro de um ócio descarado e abusivo.

                                                         

    Rita Abreu na Praia da Tartaruga correndo atrás das gaivotas. Janeiro de 2006

 

No Unibanco vejo essas figuras resolvidas e exóticas. Também há muitos grupos de velhinhas elegantes. Ontem havia uma turma enorme. Essas conseguem ser bem-vestidas e alegres. Simultaneamente. Falam alto e muita vezes nem sabem o que estão indo ver. Alguém indicou, ou uma delas escolheu. Eu sei porque escuto a conversa delas.



 Escrito por GH às 06:11
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Você mandou um e-mail pra ela dizendo que sua chegada foi a coisa mais importante que aconteceu na tua vida. E que a segunda mais importante foi sua saída. Há milênios, é isso que torna a mensagem descabida. GH já fez igualzinho a você. Após muito meditar sobre os últimos acontecimentos, no meio da noite mandou uma mensagem para um ex-namorado que não vê há quinze anos dizendo que queria que ele soubesse que perdeu a virgindade aos dezesseis, e com quase cinqüenta considerou que ele foi a melhor trepada até agora. Ele parou de escrever.

Arrependida, e senhora, mandou nova mensagem pedindo desculpas pelo excesso de sinceridade. Ele está casado, calvo, com três filhos, gordinho, morando na Bahia, recuperando-se de um câncer e do uso abusivo de drogas.

Vai ver nem se lembra mais que um dia trepou tanto. Vai ver ficou com medo que quisesse relembrar loucuras afogadas na turva memória. É preciso controlar o excesso de espontaneidade. Traz mal-entendidos, quebra encantos. E as pessoas gostam de amenidades.

Vamos tentar nos ver, sim, embora não sejamos encontros marcados. Às vezes a gente se esbarra e nunca estamos iguais.  Nos conhecemos num festival de teatro em Recife. Você era ator, eu escrevia poemas escondido e nem tinha vinte anos. Nos reencontramos quando você formou-se em Psicologia e atendia num consultório. Eu era atriz de uma peça em cartaz. Anos depois você estava executivo e eu professora de tecelagem manual. Fomos jantar. Você pagou a conta e usava terno bem passado.

No ônibus, você estava de bermudas de tarde num dia de semana. Ensinava italiano. Eu era uma espécie de guia turístico e tinha bolsa no mestrado. Depois na Cobal. Eu estava fazendo Psicologia e você era monge no Instituto da Verdade Universal. No próximo encontro você era cantor num musical. Eu tinha virado funcionária pública para sempre. Agora você é compositor e eu sou fotógrafa. E continuamos amigos.

Acho que amigo é coisa pra se guardar. Quem não tem família e usa óculos escuros tem que paparicá-los, nunca perdê-los por bobagens.

Amigos, somos impulsivos. E isso é feito o vício de fumar. É dizer não faço e fazer.  Tranco a porta, escondo a chave de mim mesma, procuro, acho, abro e me arrependo. É uma cadeia em todos os sentidos.

 

Sou irmã de sangue de toda as criaturas do gênero humano e me envergonho disso. Um mundo melhor só seria possível desabitado.

Mas há momentos em que é renovada minha fé. E nem preciso de TV a cabo. Para governar o Brasil hoje, votaria na TVE.



 Escrito por GH às 06:10
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TESÃO SEM BÚSSOLA

 

 

 

Se pudesse ainda, teria mais filhos, faria mais planos.  

Penso que é terça e é quarta e quase perco a aula. Confesso que nasci sem bússola e passo direto. Erro o caminho e me desoriento. Preciso de um Norte, de um coração forte, um espírito lúdico.

 

 

 Meu coração é meu guia. Como tua cicerone, eu atuaria. “Nesse universo tão misterioso e assustador, você disse. Nesse escuro eu não me perco. Mergulho em imagens e poesias sem medo. Não sei onde vou. Ou sei e é segredo. Sei que a vida é etérea, o tempo é o rápido do cabelo curto. Um dia de barba feita. Uma bolha de riso. Um curta, um vôo, um show. Se houvesse mais tempo.

Mas você é comprometido e eu sou aérea.

 

 



 Escrito por GH às 03:54
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Que vida é essa a nossa, ninguém mais se pergunta.

Quando eu era jovem, todos eram irreverentes.

A nossa  meta era “não entrar para o sistema”, e como era bonito.

Mas é o sistema que entra na gente, compreendo.

Sei que vou embora, escuto os sinos, decifro os sinais. É essa a hora. Hoje é quase outrora. Já me despeço dos meus pequenos rituais cotidianos, substituindo-os. E a vida segue assim: empurrando-nos delicadamente, tão delicadamente que pensamos ter domínio sobre nossos trajetos.

Não temos. Eles se fazem sozinhos. Somos prisioneiros de nossas limitações. Privados de escolha. Levo na lembrança o que cabe na mala boa, o que é leve, o que foi bom momento. Deleto na fogueira todo desgosto, deleto mensagens sem ler, bloqueio um remetente sem me envolver. Levo afetos, nenhum desafeto, algumas indiferenças. Esta é apenas mais uma bifurcação do ardiloso labirinto que é a vida humana. 

Agora há uma casa que me espera com rede na varanda, jardim e mar pertinho. Lá sou outra, livre. Índia, criança, Eva.

Lá não envelheço.

A semana vai ser cheia. Mas mandei embora a velha amargura.

      



 Escrito por GH às 03:53
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Farinha de sonhos. Caminhos se estreitam. Os poemas ficam mais jovens que eu. Morro, e os versos sobrevivem nos sebos, nos blogs, nos sites, nos sítios, quiçá nas mãos de editoras, conto que sofro, e que é por uma razão microscópica: o mundo não foi feito para seres humanos, vergonha de pertencer a uma raça predadora, faminta de poder, que ainda não aprendeu a andar a pé.



 Escrito por GH às 03:29
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Frutas passadas, lembranças misturadas, ou foi sonho?

Com o vácuo, não brinco. O fogo é fátuo, é fato, não corro, corro perigo, brinco de esconde-esconde. Ah, você é muito difícil. Ninguém disca, ninguém tecla, releio mensagens de um mês atrás feito cartas marcadas de baralho velhas, alguém pode sair machucado? Há perigo? É um jogo? Em sensações me afogo, que sufoco, a realidade fora de foco, o coração assustadíssimo não se intimidaria. Há riscos? Arrisco? Ainda arrisco? Namoraria? Chorava?

Ou levaria tudo na flauta, inclusive o internauta?

Me avisaram sim: que a fantasia desqualifica a vida. Por isso eu te queria imperfeito, porque às vezes amei de um sentimento próprio, outras tive que inventá-lo, pertenço a mim, descobre-se, persigo os desejos, evitando-os. Coloquei o meu chapéu onde eu não posso apanhar, devagar se vai ao longe sem saber com que idade se vai chegar. Fui no seu aniversário. Olha, tá muito difícil. Pulo a fogueira? Estar jovem é atirar-se sem medo, levar na brincadeira, fútil, volátil, inconseqüente?

Brinco com o fogo como quem ama e não mente?



 Escrito por GH às 03:27
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Búzios sem veranistas ainda é um paraíso durante a semana, fora da temporada, mesmo com asfalto e luz elétrica. Algumas crianças que cresceram me reconhecem (claro, não mudei NADA!). Eu, tenho que escarafunchar na memória para me lembrar das criancinhas que desapareceram dentro de homens barbados e moças formadas, no emaranhado capilar de tão grande família. Adão e Eva, sem dúvida, viveram em Geribá.



 Escrito por GH às 03:23
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Perdi o relógio hoje porque começou a contagem de um novo tempo. Chega de perdas, prazos, lutos, lutas. Rebatizei-me na praia vazia, atobás repetindo a sua mágica e cíclica coreografia, exatamente como em nossa vida, lenta agonia. Assim somos: sozinhos, com gente demais, mansos patinhos, desconfiados patinhos, pássaros vorazes, famintos, plainando, gritando, capazes de tudo, em bando, hostis na disputa, de uma hora para a outra. Perdi o relógio. Expirou o prazo de validade do encosto, estou livre como um pássaro.

Implantei-me num vazio suave. O canto frio das ondas pequenas de Geribá semicírcula, morros de pedra e cactus ladeando, vento que incomoda e pinica como um pensamentozinho obsessivo:

Que vida levamos? 



 Escrito por GH às 03:21
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As grades de ontem não estão mais comigo. Estou liberta. Como todo ser humano, desprotegida e sem garantias. As coisas invisíveis e as indizíveis de que necessitamos para não morrer não têm nome plausível.

Feliz agora sou. Férias da vida. E depois voltar à rotina básica que me espera. Gosto. Porque antes não me esperavam, não havia férias e eu me lembro bem como era. Há oito anos ganhei terra firme, um milagre quarentão tipo brinde. Nunca me digam: a gente não dá valor. Eu dou valor ao meu travesseiro porque não sou cega e acabei de ver dezenas de pessoas dormindo embaixo da marquise na avenida Presidente Vargas.

 

Voltei para a minha terra. Vim com poucos pertences, a invisível bagagem. Criei um filho enquanto estive fora, voltei e não reencontrei todos os amigos. Voltei sem pai nem mãe, plantei os pés no chão durante a ausência necessária. 

A vida anda em círculos.

Terei que deixar para trás tudo que não voa.

 



 Escrito por GH às 03:19
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O pescador chama-se Heráclito. Sabe que ganhou o nome de um filósofo que dizia que o mar nunca é igual. Heráclito me convenceu, depois de longa insistência, a remar até a bóia amarela e lá esperar a tartaruga surgir. Remar, remei. Esperar, não esperei. Dei meia volta e remando voltei. Sou uma mulher vivida, já vi tanta coisa, inclusive tartaruga, nadando e tudo. Já tomei até sopa dela, antes da natureza perigar. Heráclito quer me falar das mágicas da água de lá. Mas lá sou antiga como a tartaruga, sobrevivente, espécie quase extinta. Preciso ser preservada, agora você me entende? Não posso cair de amores e me desmantelar. Sou testemunha viva, ocular. Acreditei no amor livre, na casa de campo, nos meus livros, meus filhos, meus filmes, meus vícios e nada mais. Amor e paz. Tenho tatuagem no braço, vontade de amar, sou reincidente. Ainda hoje me emociono com estrela cadente, sol vermelho, fruta no pé. E não vou me modificar. Quem não arriscou, que arriscasse. Quem não idealizou, que o fizesse. Sonho e lembrança é tudo a mesma coisa. Não é tarde se as tartarugas estão voltando. Ainda posso esperar. 

 

 

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 Escrito por GH às 03:07
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