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ÁFRICA GRÁVIDA
O PLANETA AZUL NÃO É REDONDO E TE IGNORA

Pintura de Leila Barbosa
Minha África de panos coloridos, onde a morte se instala e a mídia não fala, onde perco meu negro todo dia, em absurdas estradas que te levam e te trazem como um pensamento, dor, ungüento, e a cobiça de todas as raças te abandonam à mingua fingindo placebos, e crianças que se perdem das mães como perdi a minha, e doenças que te matam para desocupar-te deixando simplesmente que morras deserta jogando fingidos remédios despencados em tua cabeça, de aviões que despejam a culpa em pacotes de alimentos para a imprensa tirar retratos encomendados para os olhos cegos do mundo, que globalizado desmama teus filhos espalhados pelo planeta num silêncio estrondoso que ofusca mesmo os batuques mais alegres, esvaindo-se escarlate na beleza de teus ritos de agudos e atabaques.
Minha África suicida, barco à deriva cortado o cordão umbilical que ligava o navio ao bote, ninguém olha para trás, ninguém berra tua morte, nenhum século grita de dor enquanto planejam tua sorte: um continente desabitado em meio a partos de esquálidos bebês sem direito à vida, terra mãe querida, amordaçada num mar de dialetos, tua música não alcança a lógica dos mercados, teus rituais se infiltram recortados, sincréticos, adaptados, enquanto fingimos levar-te conosco, a verdade é que teus rebentos se arrebentam todos os dias em lenta agonia merecendo notas pequenas na imprensa, empresas de urubus voam nos teus céus vermelhos de sangue centenário. Escravizados foram meus irmãos de pele de chocolate, noite, mate, escuridão no corpo e no ignorado calvário, pátrias assassinas, óbitos sem atestados porque médico nenhum assina, negra, contaminada e menina, teu povo miscigenado pelo globo inteiro, tradição de cativeiro, assombrada, assombro de tribos que tu mesma exterminas, costumeira carnificina.
Minha África cinematográfica, onde as ancas gingam, onde os ombros soltos dançam a sensualíssima dança dos deuses, das colheitas, das lutas, caças, dos banhos de rio, dos Orixás vaidosos, guerreiros, mãos espalmadas, pés livres de calçados, matreira, guerreira, pulsando ritmos de rancores, capoeira, uma nação inteira, tão repartida, pátria sofrida, de onde veio nossa comida, nossa tradição brasileira, ora, no carnaval ninguém dança o fado, herdamos a ligeireza de pés calejados, o molejo, não a saudade do Tejo, minha saudade chora quando sinto teus toques, porque te esquartejam enquanto sou partida, e o mar que me aparece em sonhos é sempre a água da despedida, dos quatro horizontes, a salgada água que separou inteira a nossa grande família.
Escrito por GH às 21:01
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África ensolarada, que me faz duplamente órfã, mil vezes impotente, sonhando com um crepúsculo ardente, com um canto de cisne negro, como um doente que agoniza e ninguém se horroriza, porque somos todos uns desalmados desmamados, ignorantes e desabitados, vivendo à margem dos fatos, e já estamos meio mortos, quase enterrados.
África grávida, o planeta azul não é redondo e te ignora. Tua prole desconhece a própria origem e à toa chora. Sente uma dor sem nome. Sente um amor sem nome. Pensa que vive e todo dia morre. Fisgadas no umbigo, e a sensação incurável de não-pertencimento. Como se fosse a vida sem nascimento. Perdemos a mágica. Morreremos todos engolindo sapos, como filhos ingratos.
África de matricidas, de herdeiros aculturados, de riquezas ensolaradas, terras virgens, morte espalhada, lá, do outro lado do horizonte onde os gritos não alcançam, onde as notícias se escondem e os horrores secretos não são temas constantes porque o assunto da realidade pré-fabricada do jornalismo te exclui como uma chaga, e eu sonho contigo como berço, como prole falsamente alourada, como criança secretamente adotada, como fruto e como filha, como lago e como ilha, como o Todo de que um dia fui parte. Mãe, estou sozinha. Pai, fui exilada.
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Por isso choro, por isso nunca estou inteira, sinto-me repartida, nunca repatriada, estou sempre em falta, sempre em coma, sempre ouvindo batuques na Lapa e sentindo-me estrangeira, solitária, com saudades da mãe que sumiu do mapa, do pai que sumiu de vista, da família que procuro. Nunca encontrei mas é minha. Lembranças em sonhos do tempo em que fui escrava, do tempo em que fui rainha. Com roupas coloridas e adereços danço e enfeito minha prole. Há marcas no meu corpo e tons na minha pele. A água fria e límpida do mar que nos separa salga-me a ferida e aplaca a minha febre.

Escrito por GH às 21:01
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O amor é uma floresta noturna onde a vida se desorienta, é feito de matéria tênue, de luzes fugidias e de sensações que escapam ao controle como minúsculas fuligens invisíveis. Podemos brincar dele inventando palavras porque as árvores vivas nos escondem uns dos outros e nem que estivéssemos abraçadinhos, nem assim o amor teria uma forma desenhável. A paixão é ausência, arte, souvenir, patuá, santinho.
Se tocada, é bolha, Se fugida, assalto, Perseguida, nuvem. Licença poética, quadro figurativo que não comporta a pessoa, qual fotografia que amamos e nos congela.

Escrito por GH às 23:37
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Você não bate bem do coração e eu moro pancada numa ilha, trocaremos cartas como amantes impossíveis. Pensaremos um no outro, excitados, tentando refazer os corpos na memória mais nublada a cada hora, ofuscada pela luz direta em nossos olhos de poetas narcisistas que se refletem em múltiplos espelhos. Pintarei meu cabelo de louro escondido para que penses em mim errado, como um velho retrato. Estou onde me amas, nas palavras. E estás aqui deitado ao meu lado, lendo à luz de velas porque de manhã tomei um banho quente tão longo que o chuveiro deu curto, e enquanto não conserto, tenho medo de acender as luzes. Você, que me ama sem rodeios às seis e quinze e depois se esquece e chora pela ex-namorada ruiva que dançou passando livre no bloco, está comigo nesse escuro de chama acesa flamejante, nós atados no circuito.

Decidi lavar roupa suja no banho escaldante, foi isso. Ou ferver com meu amante. A eletricidade explodiu minha lâmpada. E eu fiquei no breu da floresta respirando fundo. Quem sabe deixaste um cheiro de homem em algum canto. Ou tenhas caído do céu como um anjo ardente e ferido. Estamos sós, meu querido. Vivendo um doce pecado, um bom-bocado. Leva-me em teu corpo como um amuleto e eu te levarei comigo em segredo. Não há fórmulas para isso. Estamos sós, sagrados ou profanos. Completos completamente perdidos.

Entre o sono e a vigília tu me comes. Sinto que é teu o mastro fincado em minha areia úmida mas os olhos fechados têm medo e não confirmam. E roda, desenha o círculo como um pau de barraca de praia na areia fina, cava a carne como um punhal imaginário e preenche o vazio do buraco aberto em teu nome. Molhamos juntos os panos desfeitos sem a presença um do outro. Acordarei molenga como se tivesse passado a noite contigo. E estarás tão próximo que estranharei não tocar-te. Funcionarei atravessando ruas engarrafadas e anônimas com um sorriso de dama bem comida, misturada à multidão subserviente que controla os relógios atenta aos semáforos e bloqueia os sonhos eróticos inventados de dia. O colar no pescoço não jóia é língua, arfar nos brincos, braços apertados como cintos. A rotina burocrática passa correndo arrepios, nunca sei o exato momento em que me cobres como manto ou se estou nua. Se o vento me levanta a saia, se me sopras. O sol pode ser teu fogo e se a chuva me pega pelas costas desprevenida é lambida indecente, eu correndo, fugindo na rua, blusa respingada, seios num balanço arrepiando os bicos na corrida. Se o escuro da noite mete medo metes em segredo. Ela lateja e flutua. Foi um sonho ou fui tua.
Escrito por GH às 23:33
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Inventamos o enredo. Teus olhos no meu texto, teu rosto no meu sonho. O monitor tem línguas, falo, bafos quentes. Revendo teus dentes úmidos, como a fotografia. Quero que rias. Não sairemos de mãos dadas rumo ao lanche. Juntos, não atingiremos o clímax. Pensa em mim quando a juventude gritar nos hormônios que eu pensarei em ti quando o desejo vermelho ardente e crepúsculo.

Escrito por GH às 22:55
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A vida é tão rápida e tão bela que até a morte parece brinquedo. O gozo é tão fugaz que mete medo. Estou cansada de mim mesma, cansadíssima. Enfia, então, tuas fantasias pelo sonho adentro, e imagina que eu sou o que gostarias que eu fosse e que digo as frases que em minha boca à tua colas. Perderemos o juízo. Reinventa-me que eu te idealizo.

Continua
Escrito por GH às 22:47
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