Facetas Cariocas  
  

Fui tupinambá e preciso ser entendida levando-se em conta este aspecto.



 Escrito por GH às 03:57
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Ele deu defeito. Já me chamaram de prosaica e de barroca até o momento. O primeiro defeito a gente nunca esquece. Foi-se sem mexer em feriados. Não foi surpresa. E eu já sabia e já tinham me avisado. As mulheres não conhecem os sentimentos do homem, mas o seu funcionamento. 

 

O ser humano é insuportável quando estou de paquete. É de uma inutilidade mórbida. Não consegue inventar mais nada e mama nas fontes antigas o que reveste e vende com nova embalagem. Para cada remédio em teste, três eficazes venenos.

 

Às vezes dói como se fosse à toa. Como se o ser humano, a civilização, minha vida não pudessem ser melhores. E que eu esteja a me entristecer imotivadamente. Neste momento, agora, a noite no Arco da Lapa, meu vizinho, fervilha como uma ensandecida quermesse moderna, enquanto eu, retirada, escrevo a mão estas linhas mal-traçadas, com caneta e papel, na cama, como no século passado.

 

Tardiamente preparo um futuro que já chegou enquanto vivo acontecimentos episódicos. Os pés e os prós estão bem plantados no chão e eu, que nada fiz para merecer, tenho isso: casa, trabalho, filha.

 

A Lapa fervilha. Mas eu não gosto de festa de rua, viajo para a América pré-Colombiana e conheço a narigueira. Quando se interfere no imaginário de um grupo, ele se desestrutura e se torna subjugável. O Mercado superexpõe o artista e com isso a arte perde sua magia. Não penso em publicar livros como não pensava quando escrevia desde antes dos vinte anos. Outra coisa tem me aproximado de quando eu tinha tão pouca idade: uma desorientada saudade, sem alvo fixo.

 

Vivo em paz, como se não houvesse amanhã. É marca da minha geração. Não o medo da morte e outros entraves, como hoje sucede, mas uma certeza de que se a vida está agora aqui um dia inevitável não estará mais. Vivo em paz em parte porque nunca fui de fazer planos. Paguei o preço de viver à deriva, em cash. As certezas me salvaram, os planos me fizeram e a vida foi, como numa novela redundante, transcorrendo.

 

Os Astecas ficaram horrorizados com Cristo na cruz, recusavam-se a rezar para um deus morto. Preferiram Nossa Senhora. Mais bem vestida, limpa, viva, calma, pele boa.  Os Astecas receberam os espanhóis como deuses. E foram dizimados por eles. Os Astecas conheciam o zero, o vazio e o nada. Eram guerreiros e não faziam alianças.

O ser humano, em quase todas as épocas, revelou-se um imperialista que não mede esforços. Pelo poder, faz qualquer negócio, organiza a morte e mata. Fui tupinambá e preciso ser entendida levando-se em conta este aspecto. Circular pelada pela mata como uma criança refrescando-se em cachoeiras, e possuindo um comprovado riso frouxo, deixou em nosso povo marcas profundas, por muitas e muitas encarnações a fio. Conosco era assim: cada morto tinha direito a ser chorado histericamente durante algumas horas seguidas. Depois a vida continuava. Os prisioneiros de guerra eram tratados como membros da tribo até que engordavam, eram mortos e ritualisticamente comidos. Morria-se, desta forma, como um herói, jovem e exigindo vingança. Ou como um sábio, velho e dando conselhos. Nos novos tempos, a morte perdeu o estilo. Envelhecer não é de bom tom nas rodas que usam grife. Ora, com tanto recurso.



 Escrito por GH às 03:50
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Quase nunca dói mas quando dói dói demais. E vem pela via do sonho, me fisgar mais um pouco, aquela dor lá de longe que eu pensava em farelos no triturador automático de lembranças moídas, bicho este que se alimenta de memória viva, mas sobram nacos inteiros, de sofrimento tão velho que eu pensava enterrado com árvore nascida em cima dando frutos idosa, frondosa e rimando. Camuflava-se entre novas alegrias, Jason indestrutível. Nem o tempo, nem os últimos acontecimentos, nem o esquecimento, nem o instinto de proteger-me, evitaram que o trauma antiquário pulasse um salto em minha mente e me arrancasse lágrimas usadas, dormindo, tão grossas quanto sempre.

Você atravessou a minha vida e atravessado ficou impedindo que eu vivesse outras histórias. Um psicanalista me curaria do engano, em quantos anos? Vivo a vida como um game, distraindo-me. Tudo é fake, mesmo a calmaria. O tempo já nem passa, instalou-se. Se eu for pro inferno estarás lá fumando cachimbo. Se eu for pro céu terás asas. Desisti de livrar-me do que parecia um encosto. Domingo estava tão cansada que encontrar-te foi um bálsamo e todas as tuas perversões soaram inofensivas como criança brincando de médico debaixo da mesa escondido.

Fora isso, tenho meu séquito, faço as minhas brincadeiras. Os anos passam e a gente vai voltando a ser menina inconseqüente. Muitas perdas, poucos danos. E o que temos de ruim já nascemos com o defeito ou instalou-se muito cedo, nos primeiros traumas. Agora calma. Aos quinze e aos cinqüenta não se tem muitos planos. Só queremos uma coisa, obsessivamente: abarcar o mundo inteiro.

O que difere os dois mundos é o tamanho.



 Escrito por GH às 03:36
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QUEM NUNCA COMEU ESTRELAS NEM SABE O GOSTO

 

A dor nas cordas vocais da garganta da gripe é combatida com um remédio que dilata os vasos sanguíneos e a menstruação jorra, vermelha como flores e fortalece o corpo frágil com vitaminas de ferro e tudo cai como bomba no intestino negro até que o comprimido estanca o medo de sentir o corpo em descompasso, debilitado, zonzo, sonso, sem energias porque a saudade da gripe, mera gripe, nem tossia. Foi-se o resfriado, a hemorragia, a diarréia, a dor, a apatia, a carteira quase vazia, as cartelas com dizeres de comprimidos, arquivadas na cestinha de remédios, e a revolta, porque o fígado reclamou por último e eu chorei vendo o dia raiar com dor de cabeça e ânsia de vômito, querendo mamãe nessas horas e a saúde de volta.

Dançar. Correr, trabalhar muito, ensolarar-se. Tudo que se quer é viver normalmente sem o tornado dos males medicados e os efeitos colaterais de todos os remédios, mesmo os placebos dos males da alma sem cura.

Quem se auto-policia não é livre, vive mais preso que entre grades. Repressões são os grilhões invisíveis que só são reais quando olhamos para dentro. A liberdade não tem medo nem tem culpa. Pode habitar uma cela.

Escrava de impulsos trapalhões, à mercê das vontades indesejáveis. Ah, cada um que se aceite. Quem pode pode e leva a vida na flauta. Meu compromisso é comigo e é sério. E se me amordaço, é porque quero estar livre para escolher-me.

O ser humano é basicamente um bicho que se acostuma. Quem nunca comeu estrelas nem sabe o gosto. Assim, dessa maneira, o mundo vai diminuindo. Nunca sair do Brasil, dormir uma noite agarrado, soluçar num ombro amigo, olhar no olho, cobrir-se com lençol de seda, ser aplaudido de pé, passar um mês inteiro de sandália havaiana, nadar pelado, gastar muito dinheiro sem culpas, dormir sob um céu de estrelas, ser amado, aventurar-se. Tentei? Tentaste?

Há pessoas que se acostumam a viver pequenino, a sonhar baixo, a receber beijos indiferentes, a ouvir frases de amor decoradas, a tirar férias para estudar, domingos para ver tevê, sentir medo e achar que é natural. Sofrer dores e não procurar remédios, transitar na rotina banal e não sentir tédio.

Ora, é possível morrer e continuar transitando, respiração controlada, pressão estável, frases feitas pela boca afora. Morrer é perder desejos, sonhos, planos, irreverências. A tudo o ser humano pode adaptar-se. Esse é o verdadeiro defunto, o adaptado. Quem está vivo não aceita. Há vivos que dormem acordados. E quando morrem de verdade nem notam. Nem fazem falta. Eram tão pouco.

Há milagres possíveis, com mil erros na frente, encarrilhados. A natureza dá, a natureza toma. Nunca estamos totalmente seguros. A sinceridade nos ampara. Há risos, riscos, rasgos. Trago uma bagagem de marcas pesadas e também trazes inventários de alegrias e dores mal-acabadas. São desvencilháveis, tratáveis, quando nos modificamos. Naturalmente. Sem a interferência intencional do outro. Perder o medo é ganhar mais vida.

Cada história é única. Se o que vivi compõe o que sou, o que viverei pode me transformar, estamos combinados. Não fui mumificada, tenho certeza absoluta que estou viva e além dos limites estatísticos da maioridade.

No momento em que ainda não há marcas visíveis, em que supostamente nada aconteceu, é possível esperar pelo mistério do encontro. Estar a caminho de um emprego pelejado, no primeiro dia, embarque no avião para a viagem, um caminhão de mudanças que chega na esperada casa nova, um súbito e longo e inesperado beijo encaixado vira o mundo dos sentidos de cabeça para baixo.

 



 Escrito por GH às 02:52
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Continua

África grávida, o planeta azul não é redondo e te ignora.



 Escrito por GH às 02:50
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